O Cristianismo na China - 1a parte

O Cristianismo na China

 

A liberdade de culto cristão na China

Adaptado de texto publicado no Mensageiro Luterano em agosto 2008

 

No centro das atenções do mundo por sua importância para a economia mundial, a China impressiona por vários motivos, entre eles o aumento expressivo do número de cristãos em um ambiente pouco receptivo a demonstrações públicas de fé. A China deverá se tornar, nos próximos 15 anos, a mais populosa nação cristã do planeta1.

Tendo em vista que as famílias chinesas são normalmente pequenas, pela política do filho único que vigorou no país até recentemente, o crescimento do número de cristãos acontece por meio de conversões. Com 1,36 bilhão de habitantes, no país localizado no leste asiático convivem ateus, muçulmanos, budistas e adeptos de outras religiões tradicionais, além de um crescente número de cristãos. Apresentamos abaixo a primeira parte adaptada de um texto publicado em agosto de 2008 pelo Mensageiro Luterano sobre o Cristianismo na China. As outras partes serão publicadas a cada sexta-feira, acompanhe!

 

Liberdade religiosa

A Constituição da República Popular da China (RPC) garante liberdade de crença religiosa. No entanto, o Governo chinês determina que as práticas religiosas sejam restritas àquelas que ocorrem dentro de organizações oficiais e em locais de culto registrados. Talvez porque liberdade religiosa envolve liberdade de reunião em grupo, assunto sensível em um regime não democrático.

De acordo com um relatório sobre a China publicado pelas Sociedades Bíblicas Unidas (SBU) em abril de 2007, o número de cristãos no país é de cerca de 22 milhões de pessoas. Estima-se que esse número seja até quatro vezes maior. No relatório, o Bispo Aloysius Jin Luxian, da Diocese Católica de Shanghai, aponta: “Desde a Revolução Cultural, a Igreja Católica triplicou de tamanho, enquanto a Igreja Protestante cresceu 30 vezes.”

 

Religiões predominantes

Há cinco religiões predominantes na China: Budismo, Taoísmo, Islamismo, Protestantismo e Catolicismo. Existem registros sobre a presença da Igreja Católica na China desde o século VII, através do trabalho dos jesuítas. O Protestantismo está presente desde o século XIX, com missionários de diferentes denominações, vindos da Europa – Alemanha, Inglaterra e Escandinávia – e dos Estados Unidos.

De acordo com pesquisa realizada pela East China Normal University, de Shanghai, citada no relatório da SBU de abril de 2007, há cerca de 300 milhões de pessoas na China que praticam uma das cinco religiões predominantes no país. Ainda que as autoridades apresentem um número oficial bem mais baixo – de 100 milhões –, a pesquisa indica que 31,4% das pessoas acima de 16 anos se consideram religiosas e que 12% da população religiosa do país é cristã.

 

Instituições estatais de controle

A primeira metade do século XX foi conturbada para os chineses, com a ocupação da China pelo Japão e a instauração da RPC pelo Partido Comunista Chinês, em 1949. Após a revolução comunista, seguiram-se três décadas difíceis para os cristãos chineses. Na tentativa de diminuir a influência estrangeira, foram expulsos os missionários estrangeiros e rompidas as relações com o Vaticano, que na época representava o imperialismo e o colonialismo europeu.

Com a expulsão dos missionários estrangeiros, os chineses precisaram tomar a frente de suas próprias igrejas. O governo determinou que os protestantes se unissem sob uma só Igreja e foi criado, assim, em 1950, o Movimento Patriótico das Três Autonomias (MPTA). A expressão “três autonomias” diz respeito à auto-administração, auto-sustentação e autopropagação, ou seja, uma Igreja essencialmente chinesa, sem influências externas.

Reunir denominações diversas sob uma mesma Igreja não foi fácil. Ken Peterson, que atuou na China entre 1988 e 1995 como diretor internacional e diretor de ministérios da LHM (Lutheran Hour Ministries), conta que ouviu de líderes religiosos chineses que o processo para a criação de uma única Igreja Protestante e a padronização da liturgia, dos sacramentos, dos hinos, entre outros aspectos, levou cerca de cinco anos.

Em 1957, foi criada a Associação Patriótica Católica (APC), na qual estão reunidas as congregações católicas oficiais. O Partido Comunista Chinês aprova previamente os bispos, que são nomeados pela APC e não são reconhecidos pelo Vaticano. Por essa razão, e pelo fato de a Santa Sé reconhecer Taiwan, a RPC ainda não reatou as relações diplomáticas com o Vaticano.

O MPTA e a APC, e qualquer grupo religioso, deve ser registrado junto à Administração Estatal para Assuntos Religiosos (Sara, na sigla em inglês), órgão responsável por monitorar as atividades religiosas e averiguar sua legitimidade.

Na China Continental, portanto, a organização que reúne o Conselho Cristão Chinês e o MPTA é a única Igreja Protestante sancionada pelo governo. Há informações de que alguns padres continuam leais ao Papa, mas o fazem clandestinamente.

 

A Revolução Cultural

Em 1966, teve início a Revolução Cultural, um período difícil para os chineses. Para os cristãos, os desafios foram sem precedentes: igrejas foram fechadas e proibidas, e seus prédios tomados pelo governo para serem usados como escolas, fábricas, etc. Pastores e padres foram enviados para trabalhos forçados em fábricas e no campo. Diante da perseguição, os cristãos passaram a realizar cultos em suas casas, escondidos em subsolos. Assim surgiram as igrejas domésticas ou subterrâneas, tanto protestantes quanto católicas.

Apenas em 1979, pós-Revolução Cultural, as igrejas puderam ser novamente abertas, desde que unidas e reguladas pelas instituições oficiais do governo. Em 1980, foi criado o Conselho Cristão Chinês (China Christian Council, CCC) com o objetivo de trabalhar em conjunto com o MPTA na educação teológica e na distribuição de Bíblias, hinários e literatura cristã.

Muitos cristãos das igrejas subterrâneas não aceitaram se submeter às instituições controladas pelo governo e não registraram suas igrejas, permanecendo ilegais. Seus membros correm o risco de serem processados ou presos, por estarem agindo contra a lei.

 

Quer ler mais sobre isso?! Então fique atento ao nosso blog, semana que vem tem mais!!

 

Próximos tópicos para leitura: A perseguição continua?; Abertura; Igrejas e impostos; Contrapontos; Evangelização; Censura; Diferentes graus de controle.

 

 

Fontes bibliográficas:

1 BROWN, Andrew. China doesn’t want to suppress Christianity – just control it. Artigo publicado em 30 de julho de 2015. Disponível em: http://www.theguardian.com/commentisfree/2015/jul/30/china-christianity-removal-crosses-communist-party-churches.

CARLETTI, Anna. Diplomacia e Religião: encontros e desencontros nas relações entre a Santa Sé e a República Popular da China de 1949 a 2005. Brasília: FUNAG, 2008.

BLANDENIER, Jacques. “L’éveil de la Chine à l’Evangile”. Artigo publicado na série Servir en l’attendant em 14/2/1988. Communautés et Assemblées Evangéliques de France. Disponível em: http://servir.caef.net/spip.php?article847&debut_articles_rubrique=645.

United Bible Societies World Report. Número 410. Abril 2007. Disponível em: www.biblesociety.org/wr_410/wr_410.pdf.

 

Websites:

China ABC – China Radio International – http://portuguese.cri.cn/chinaabc/

Missão Portas Abertas – www.portasabertas.org.br/

Freedom House – www.freedomhouse.org/

U.S. Commission on International Religious Freedom – www.uscirf.gov/

United Bible Societies China Partnership – www.ubscp.org/

Amity News Services: http://www.amitynewsservice.org/

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