​Outros 500

Ano passado circulou pelas redes sociais uma imagem muito criativa de lâmpadas acesas naquilo que parecia um palco com o subtítulo sugestivo: “Ser luterano são outros 500”. Para o público faceboquiano brasileiro foi uma das tentativas de se dar a largada para as comemorações dos 500 anos. A ideia, ao que parece, era de captar o espírito de expectativa dos luteranos e dar mais impulso para as atividades celebrativas em torno do aniversário da reforma. E, de quebra, mexer um pouco com nossos brios e massagear nossa auto-estima. Como se precisássemos, alguém poderia dizer.

O post gerou polêmica (que novidade em se tratando de redes sociais, não é mesmo?). Após uma sucessão de likes e compartilhamentos, algumas vozes se levantaram no sentido de questionar o conteúdo da frase. A minha foi uma delas. Será que o tom não seria ufanista demais? Será que não soava arrogante de nossa parte? Seguiram-se bons argumentos pra ambos os lados.

Mas não foi de cara que questionei o “ser luterano são outros 500”. Num primeiro momento, o slogan me atraiu. E muito. Assim que vi aquela imagem, salvei-a no meu computador e já comecei a fazer conta de cabeça calculando o que faria com ela. Caso você não tenha percebido, estou confessando: meu primeiro arroubo foi esse mesmo. Identifiquei-me de tal maneira com a frase que planejei seu uso propagandístico imediato em todas as plataformas possíveis. Daria uma boa séria de sermões. Seria a frase que talvez resgataria um pouco do amor-próprio que minha congregação poderia estar carecendo. Seria o lema que me carregaria neste nosso ano glorioso de jubileu. Criado numa cidade do interior do Rio Grande do Sul, onde a presença luterana era sentida muito palpavelmente na sociedade, estava com saudade daquele sentimento de reconhecimento e ibope. Saudade de não ser minoria. De não ser confundido. Nostalgia de ser celebridade ou protagonista com minha igreja. De não ter que mendigar por privilégios. Saudade de abrir a boca pra dizer: nasci gremista e luterano, tenho direito de me achar. O ministério pastoral, desde o tempo do estágio, teimou em me levar sempre para paisagens onde a igreja luterana aparentemente não significa grande coisa, onde normalmente é hostilizada, ou o que é pior, amargamente escanteada e esquecida. O mini-pôster chegou à tela touchscreen do meu laptop e encontrou calorosas boas-vindas. Trazia um sopro de alento. Estava precisando daquele cartaz.

Até que uma daquelas lâmpadas fez acender uma luz de alerta: será que esse deveria realmente ser o principal espírito de nossas comemorações? Mais: será que essa tinha sido e deveria continuar sendo a atitude por trás de nossa identificação e confissão de fé. E ainda: até que ponto esse tipo de vaidade é saudável? Até que ponto tal postura se coaduna com o verdadeiro DNA luterano e com as melhoras práticas cristãs? Debati o assunto num grupo com colegas no whatsapp, em reuniões de skype com a diretoria da ANUL e também em encontros com jovens e universitários no distrito.

Em algum momento dessa reflexão, decidi abortá-la. Pra evitar mal-entendidos com cristãos de outras denominações com os quais interagimos em várias instâncias e tentando exercer sensibilidade no testemunho do evangelho e no relacionamento com não cristãos, guardei a imagem/frase dentro de uma pasta criptografada do hd e tenho incentivado outros que façam o mesmo.

Foi quando outra frase deu o ar da graça, acho que foi até pelas bandas dos nossos primos de confissão luterana. Ligeiramente diferente, na sacada de marketing, mas profundamente distinta na proposta de perspectiva: “Agora são outros 500”. Sem deixar de ser agradecido pelos 500 anos da reforma, busca honrar o legado olhando pra frente e com as mãos na massa. Toma posse dos tesouros dos protestantes, mas não de forma presunçosa e romântica, senão crítica, realista e pró-ativa. Deixa espaço para destaques e recordações históricas necessários, mas convida a uma atualização e quem sabe até a um upgrade da herança que chegou a nós. Sai o “Luterano” do centro das atenções, mas acho que isso até encontraria apoio no nosso próprio pai Lutero. Permite levitarmos por instantes em emoções legítimas para quem não nasceu ontem como igreja, mas reposiciona nossos pés rapidamente ao lugar que devem estar - no chão – e devolve oportunamente o princípio e a intenção original da ecclesia reformata sempre reformada, tão imprescindíveis para vivermos de modo digno e transformador a missão que nossa geração tem nas mãos.

Não reivindico que acabemos com a primeira frase. Talvez ela até tenha sido criada com a melhor das intenções por algum jelbiano que está lendo esta reflexão agora e a quem de antemão me desculpo pelo contraponto. Talvez ela tenha um lugar justificável beeeeem no fundo de nosso subconsciente. Talvez até me pegue sussurrando-a pra mim mesmo no final de uma homilia ou entre uma estrofe e outra do Castelo Forte em algum evento festivo deste mês, numa recaída momentânea desculpável. Não deletarei o “ser luterano são outros 500” da tal pasta criptografada, mas ele não me representa. Pelo menos não tanto como o “agora são outros 500”.

Laerte Tardelli Voss
Conselheiro da ANUL
Pastor no Rio de Janeiro.

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